Estátua de São Francisco tira cocô do olho

Diário

Um sol de estalar mamonas na tarde desta terça-feira, depois de quatro dias de chuva intensa. Francisco, em pé com os braços cruzados e as mãos viradas para cima no novo endereço. Não sei se rogando preces pra chuva dar um tempo ou agradecendo pela mudança, agora e casa própria, o que deixa mais tranquilo, pois, onde estava, sempre corria o risco de alguém ameaça-lo de despejo, como aconteceu há alguns anos, quando um vereador cismou que Francisco tinha que sair de lá. Sorte que o povo saiu em defesa do santo e fez o vereador de primeira viagem perceber que tinha se metido numa fria ao pedir a cabeça de Francisco. Com certeza, aprendeu que com santo forte não se brinca.

Mas, voltando na tarde de hoje, no momento em que olhei para o alto da imponência da torre da estátua, eis que, São Francisco se mexeu. Sem mentira nenhuma, eu vi! A estátua de São Francisco se mexeu!
Foi porque um bem-te-vi, desses grandes, feliz com a volta do sol, pousou-lhe na testa e fez um cocozão bem no olho direito dele. Pena que não deu tempo para tirar um retrato do flagrante delito do pássaro travesso. Francisco olhou de cima, baixando um dos olhos e, pensando que não havia ninguém olhando, fez bico com a boca, mirou no pássaro e assoprou para espantar o bichinho, que voou com jeito de quem estava aliviado de um peso enorme, tamanha a cagada que deu no zóio do santo, deixando para trás o cocozão que sujou Francisco.
Protetor e amigo dos animais que é, Francisco continuou incomodado com merda num olho e, ainda achando que estava sozinho na praça, mexeu o braço direito e com a mão limpou o serviço do passarinho, jogando no chão a meleca que lhe impedia de ver direito.
Olhei dos lados e não vi mais ninguém para que eu não pudesse mentir sozinho. Não havia outra testemunha. Só eu e Francisco sabemos que ele se mexeu para tirar um cocô do bem-te-vi. Até eu me mexeria se fosse uma estátua cagada.
Num rompante de surpresa e maravilhado com algo tão inusitado e impossível até aquele momento que só eu vi, gritei para a imagem:
— Ô Francisco! Eu vi tudo, mas só consegui fazer uma foto. Já pensou eu filmando isso? Você não faz de novo?
Foi quando ouvi uma voz:
— Falando sozinho, moço?
Era uma senhora que passeava com um urubu no ombro e um macaco amarrado numa cordinha.
De nada adiantaria contar a história pra uma maluca. Me virei e dei um passo para sair, quando ouvi a velha dizer:
— Viu que doido, Chiquinho? É cada um que me aparece…
Fui embora. Chega de doidos na praça por hoje!

Texto de Clóvis de Almeida
Foto de Nilson Hort/ Altofalante Notícias