Nos tornamos, nos últimos anos, fiscais de tudo. As doenças, vírus, mosquitos, bactérias e outras pragas ou contaminações que ganharam espaços no século XX assustaram o mundo, que num rompante de defesa espalhou um misto de medo com prudência. Médicos, especialistas em higiene, imprensa e até a mãe da gente começaram a dizer que as mãos precisavam ser lavadas várias vezes ao dia, que as frutas e verduras têm que ser desinfetadas com vinagre e que os dentes necessitam ser escovados todas as vezes que comemos alguma coisa. Nos anos 60 criaram o personagem Jeca Tatu para ilustrar uma campanha de combate aos vermes, lombrigas e companhia ilimitada. Porém, é só do que se tem notícia das preocupações com saúde naquela época.
O leitor mais novo pode estranhar estas afirmações, mas quem já tinha juízo antes da década de 70 sabe muito bem que não se falava nem um quarto das medidas higiênicas que se pregam hoje. Escovar os dentes era um hábito raro nas famílias. A maioria das mercearias e “vendas” não possuía escovas ou creme dental para vender. O Brasil já foi chamado de “o país dos banguelas”. Usava se os dentes até gastarem na linha da gengiva ou a dor ser maior que a existência. Um dos remédios mais vendidos nas farmácias era para aliviar a dor das profundas cáries. Havia gente que colocava creolina no buraco que atingia a raiz. O que restara do dente acabava saindo sozinho, explodido, coitado! Pingar álcool era o mais comum nas horas de dor aguda. Faziam-se bochechos até sair a pele interna da boca e adormecer a língua. Alguns engoliam a cachaça, ficavam bêbados e adormeciam esquecendo o dente podre. O “gran finale” do sofrimento era numa cadeira de dentista, bem parecida com as dos barbeiros. Aliás, passou por essas bandas um “dentista” barbeiro. Era o tal do serviço completo, com cabelos, bigodes, barbas e dentes.
Ainda bem que o mundo vai aos poucos se acordando para os perigos da vida microscópica. Numa simples migalha de pão pode se esconder um inimigo perigoso. Há quem diga que não precisa tanta preocupação, pois antigamente não se falava tanto em doenças. Quem pensa assim, se engana. O que não havia era a divulgação necessária dos perigos presentes na terra, na água e no ar. O índice de mortalidade infantil era de 200 crianças para cada 1.000 nascidas vivas. Hoje, a média é de 16 por mil. Podia ser menos, mas já foi um grande avanço que começou com as medidas simples de higiene.
Voltemos para a Assis de antigamente. Pouca gente sabe, mas onde hoje está o ginásio Tancredão já foi um depósito de lixo. Todo lixão era levado para lá. Centenas de pessoas vasculhavam os restos da cidade, buscando algo que valesse a pena. Muitos se lembrarão de um homem que morou num barraco naquele local, em meio aos entulhos fétidos. Sempre descalço e sem nenhuma proteção nas mãos. Morreu cedo, com os pés amputados por terem apodrecidos devido às contaminações no lixo. Hoje, um caso como esse seria fiscalizado pelas autoridades sanitárias, mas naquele tempo, o mundo era outro. Já pensou se o vírus da COVID tivesse aparecido naquela época? Não ia sobrar ninguém para dizer que vivíamos num mundo feio que precisa ser lembrado para não ser repetido.
Texto de Clóvis de Almeida 2009/2024