Sangue era o show

Bons Tempos

Cresci ao lado do Hospital São Lucas, desde que suas paredes saíram do chão. Meu passatempo preferido era ficar nas janelas dos quartos de internamentos, conversando com pacientes. Minha pergunta principal estava sempre na ponta da língua: o que aconteceu? Por isso, eu sabia o que cada um tinha e porque estavam ali. Cheguei a ganhar o apelido de “piolho do hospital”. Meu pai me chamava de “espicula de rodinha”, por causa das perguntas infindáveis que eu fazia. Talvez por isso eu tenha escolhido a carreira de jornalista.

Foi assim, com uma curiosidade sem limites, que assisti a centenas de atendimentos de emergência que davam entrada pela portaria do hospital. Cansei de ver jeeps chegando com gente ferida, muitas vezes com várias delas jogadas na traseira do carro, umas em cima de outras, cheias de sangue. Algumas já mortas.

Naquelas horas, juntava gente de todo canto, era a vizinhança e outros que percebiam a movimentação de longe. Os comentários que surgiam enquanto as vitimas eram atendidas narravam os motivos que levaram os moribundos ao hospital. O resumo era sempre o mesmo: briga de posseiros e jagunços. E sempre alguém a dizer: “Tem outro Jeep que chegou cheio lá na funerária”, dando a entender que havia mortos da desavença.

Os baleados, furados de faca ou amassados por porretes ficavam num quarto de ala interna do hospital, por questões de segurança. Por isso, eu não tinha acesso pelas janelas. Mas, sempre havia um jeitinho, quando eu entrava pelas portas do fundo e ia especular a vítima no quarto. Quando já estavam melhores, contavam tudo, como sempre, com a versão de vítima. Eu acreditava na versão que me diziam, afinal, não tinha a menor ideia do que acontecia no mundo lá fora. Minha maior preocupação era saber se doía muito.

Por Clóvis de Almeida